Atriz morreu aos 98 anos, em São Paulo, após mais de oito décadas dedicadas ao rádio, ao teatro, ao cinema e à televisão; sua trajetória atravessou gerações e deixou personagens que permanecem na memória do público
A televisão brasileira perdeu uma de suas maiores referências. Laura Cardoso morreu aos 98 anos, na noite de segunda-feira (17), em sua residência, em São Paulo, por causas naturais. Com uma carreira iniciada ainda no rádio e construída ao longo de mais de oito décadas, a atriz se tornou uma das figuras mais respeitadas da dramaturgia nacional e uma presença que parecia pertencer à própria história da televisão.
A notícia provocou comoção entre artistas, colegas de profissão e admiradores. A partida de Laura acontece em um momento particularmente doloroso para a cultura brasileira, marcado também pela morte de Glória Menezes, aos 91 anos, poucas horas depois. Juntas, as duas representavam uma geração de atrizes que ajudou a transformar a dramaturgia em parte da memória afetiva do país.

Uma carreira que começou antes da televisão
Nascida em São Paulo, em 13 de setembro de 1927, Laurinda de Jesus Cardoso iniciou sua trajetória artística ainda muito jovem. Aos 16 anos, começou a trabalhar no rádio, numa época em que as radionovelas eram um dos principais meios de entretenimento do público brasileiro.
Quando a televisão começou a ganhar espaço no país, Laura estava entre os profissionais que ajudaram a construir aquela nova linguagem. Na década de 1950, participou dos primeiros teleteatros da TV Tupi e acompanhou de perto a transformação de uma televisão ainda experimental em uma indústria cultural de enorme alcance.
Não se tratava apenas de longevidade. Laura Cardoso atravessou diferentes fases da dramaturgia brasileira sem perder a força interpretativa. Sua carreira reuniu rádio, teatro, cinema e televisão, acumulando mais de uma centena de trabalhos e aproximadamente 60 novelas, segundo levantamentos publicados após sua morte.
Personagens que ficaram na memória
Ao longo das décadas, Laura Cardoso interpretou personagens de diferentes perfis e mostrou uma capacidade rara de transformar papéis secundários em figuras fundamentais para as histórias.
O público a viu em produções como “Mulheres de Areia”, “A Viagem”, “Chocolate com Pimenta”, “Caminho das Índias”, “Sol Nascente” e “A Dona do Pedaço”, entre muitas outras.
Em “A Viagem”, viveu Guiomar. Em “Mulheres de Areia”, interpretou Isaura. Já em “Caminho das Índias”, deu vida a Laksmi Ananda. Cada personagem carregava uma identidade própria, construída com a precisão de uma atriz que fazia do texto, do silêncio e dos pequenos gestos instrumentos de interpretação.
Seu último trabalho em uma novela foi “A Dona do Pedaço”, em 2019. Aos 92 anos, Laura interpretou Matilde, personagem cuja memória comprometida escondia informações importantes para o desenvolvimento da trama.
Mesmo depois de se afastar das grandes produções televisivas, ela não deixou completamente a arte. Em 2025, protagonizou o curta-metragem “Dona Rosinha”, mantendo até os últimos anos uma ligação com o ofício que marcou sua existência.
Respeito que ultrapassou a televisão
A grandeza de Laura Cardoso também se estendeu ao cinema e ao teatro. No cinema, participou de produções como “Terra Estrangeira” e “Através da Janela”, demonstrando a mesma força que havia levado para os palcos e para a televisão.
Seu trabalho foi reconhecido com importantes premiações ao longo da carreira. Entre as homenagens estão prêmios Grande Otelo, APCA e Shell, além de distinções pelo conjunto de sua trajetória artística. Em 2006, recebeu a Ordem do Mérito Cultural.
Em 2025, a atriz recebeu ainda uma homenagem na Calçada da Fama dos Estúdios Globo, reconhecimento que simbolizou sua importância para a história da emissora e da televisão brasileira.
“Insuperável”, diz Fernanda Montenegro
Entre as homenagens após sua morte, uma das mais emocionadas veio de Fernanda Montenegro, que classificou Laura como uma artista “insubstituível”. As duas dividiram cenas em “O Outro Lado do Paraíso”, em 2017.
O diretor Walter Salles também destacou a dimensão artística e humana da atriz, descrevendo-a como uma profissional excepcional, rigorosa e generosa. Salles trabalhou com Laura no cinema, em “Terra Estrangeira”, e ressaltou a maneira como sua presença contribuía para dar profundidade às histórias.
Essas lembranças ajudam a dimensionar o tamanho da perda. Laura não era apenas uma atriz de uma geração. Era uma referência para gerações de atores que chegaram depois dela.
Um capítulo que chega ao fim
A morte de Laura Cardoso representa o encerramento de uma trajetória que praticamente acompanhou o nascimento e a consolidação da televisão brasileira.
Ela começou quando a dramaturgia ainda era transmitida pelo rádio, testemunhou os primeiros passos da televisão, participou da era dos grandes teleteatros, atravessou diferentes formatos de novelas e chegou ao século XXI mantendo o respeito de colegas e espectadores.
Por mais de 80 anos, Laura Cardoso fez da profissão uma parte inseparável de sua identidade.
Sua partida deixa um vazio difícil de preencher. Não apenas porque o Brasil perde uma atriz de talento extraordinário, mas porque desaparece uma testemunha viva de praticamente toda a construção da dramaturgia brasileira.
Laura Cardoso deixa personagens, histórias e uma marca que não pertence apenas à televisão. Pertence à memória cultural do Brasil.
Por Alexsandro Assis

