Relatórios internacionais revelam padrão sistemático de abusos contra menores detidos após a vitória contestada de Maduro em 2024, enquanto Caracas acusa interferência estrangeira e libera prisioneiros sob crescente pressão global.
Caracas, Venezuela – Em meio ao caos político que assola a Venezuela desde as eleições presidenciais de julho de 2024, relatórios da Organização das Nações Unidas (ONU), Anistia Internacional e Human Rights Watch expõem um lado sombrio e alarmante: a detenção arbitrária, tortura e violência sexual contra centenas de crianças e adolescentes. Esses abusos, descritos como parte de uma “máquina repressiva” coordenada pelo governo de Nicolás Maduro, surgem como crimes contra a humanidade, desafiando a comunidade internacional a agir enquanto o regime nega veementemente as acusações e atribui tudo a uma campanha de desestabilização liderada pelos Estados Unidos.

A repressão intensificada após a reeleição de Maduro – contestada por alegações de fraude eleitoral – resultou em mais de 2.000 detenções, incluindo pelo menos 158 a 220 menores entre 13 e 17 anos, muitos deles participantes de protestos pacíficos ou simplesmente pegos no fogo cruzado. Esses jovens, alguns com deficiências, foram acusados de “terrorismo” ou “incitação ao ódio” sem as salvaguardas jurídicas exigidas pela Convenção sobre os Direitos da Criança, da qual a Venezuela é signatária. Mantidos em isolamento, sem acesso a familiares ou advogados, eles enfrentaram condições desumanas que violam normas internacionais.
Os relatos vão além das prisões: espancamentos, choques elétricos em áreas sensíveis como genitais, asfixia, privação de sono e ameaças constantes para forçar confissões. A violência sexual emerge como um padrão sistemático, com toques forçados, nudez imposta, humilhações e ameaças de estupro – afetando meninas, meninos e até adolescentes grávidas. Embora não haja confirmações de estupros em massa explicitamente documentados nos relatórios oficiais da ONU, as agressões em contextos de detenção são generalizadas, deixando sequelas físicas e mentais profundas. A Anistia Internacional, em novembro de 2024, destacou que pelo menos 198 crianças ainda sofriam consequências meses após as detenções, incluindo traumas psicológicos irreversíveis.
Esse horror não é isolado. Desde 2014, a ONU e ONGs identificam uma repressão orquestrada pelo Estado, envolvendo a Guarda Nacional Bolivariana (GNB), serviços de inteligência e grupos paramilitares conhecidos como “coletivos” pró-governo. Após as eleições de 2024, a onda de violência foi descrita como “sem precedentes”, com mortes, desaparecimentos forçados e torturas como ferramentas para silenciar opositores. Investigadores independentes apontam responsabilidade para altos funcionários do regime, embora sem evidências diretas de ordens pessoais de Maduro para abusos específicos contra crianças.
Depoimentos chocantes ilustram a brutalidade. Uma adolescente relatou à Anistia ter sido forçada a se despir e sofrer toques indevidos durante interrogatórios, sob ameaças de piora se não colaborasse. Outro menor, em relatório da Human Rights Watch, descreveu espancamentos e isolamento que resultaram em distúrbios mentais permanentes. “Eles nos trataram como terroristas, mas éramos só crianças protestando por um futuro melhor”, confidenciou uma vítima anônima à ONU, ecoando o desespero de famílias dilaceradas.
O governo venezuelano rebate as denúncias com veemência, classificando os relatórios como “interferência externa” e afirmando que as detenções foram essenciais para preservar a ordem pública. Caracas acusa os EUA e a oposição de orquestrar uma campanha de desestabilização, negando violações sistemáticas. No entanto, em janeiro de 2026, sob sanções internacionais e pressão diplomática, o regime liberou dezenas de prisioneiros ligados aos protestos – uma medida vista como conciliatória, mas criticada por defensores de direitos humanos como insuficiente para combater a impunidade.
A ONU persiste em apelos por investigações independentes e justiça, alertando que a falta de accountability perpetua o ciclo de abusos. Em dezembro de 2025, a entidade ligou diretamente a GNB a assassinatos e torturas, reforçando a necessidade de escrutínio global. Organizações como Anistia e Human Rights Watch demandam a liberação imediata de todos os presos políticos, incluindo menores, e o fim da perseguição.
Enquanto a Venezuela afunda em uma crise humanitária – com pobreza extrema, escassez de alimentos e colapso da saúde – esses abusos ameaçam destruir o tecido social do país. Vítimas e famílias clamam por reparação em um cenário de incertezas, com a comunidade internacional dividida entre condenações e diplomacia cautelosa. A pergunta que paira: até quando a impunidade reinará sobre a inocência perdida?
Por Alexsandro Assis
