Operação preventiva revela arsenal de fuzis, explosivos e veículos blindados em grupo inspirado no ‘novo cangaço’, com apoio do Ministério Público
São Paulo – Em uma ação coordenada que pode ter evitado um banho de sangue em cidades do interior paulista, a Polícia Civil deflagrou nesta terça-feira (10) a Operação Volante, desarticulando uma organização criminosa que se preparava para roubar instituições financeiras com extrema violência. A quadrilha, equipada com fuzis de calibre .50, veículos blindados, artefatos explosivos e drones, planejava ataques na modalidade conhecida como “novo cangaço”, caracterizada por cercos urbanos e confrontos diretos com forças de segurança. Foram cumpridos 20 mandados de busca e apreensão e 10 de prisão em municípios como São Paulo, Embu das Artes, Taboão da Serra, Jacareí, Ribeirão Preto e Cravinhos.
A investigação, liderada pela Delegacia de Polícia de Cravinhos com suporte do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público, começou há meses após dicas sobre movimentações suspeitas. Os policiais descobriram que o grupo estava em fase avançada de planejamento, com armas de alto poder destrutivo capazes de perfurar blindagens e explosivos para arrombar cofres e criar distrações. “Eles não hesitariam em transformar ruas pacatas em zonas de guerra”, relatou um investigador envolvido na operação, que preferiu não se identificar por razões de segurança. Entre os itens apreendidos, destacam-se fuzis importados ilegalmente, coletes à prova de balas e equipamentos táticos que sugerem uma operação militarizada.

O “novo cangaço” remete a uma onda de crimes que assola o Brasil desde os anos 2000, inspirada nas táticas dos cangaceiros do Nordeste histórico, como Lampião, mas adaptada ao século 21 com tecnologia e violência ampliada. No interior de São Paulo, casos semelhantes já deixaram marcas profundas, como o ataque a Botucatu em 2020, onde uma quadrilha sitiada a cidade por horas, trocando tiros com a polícia e aterrorizando moradores. Esse contexto social revela uma migração do crime organizado para regiões menos vigiadas, explorando vulnerabilidades econômicas e o acesso facilitado a armas via contrabando. Especialistas em segurança pública apontam que o aumento de desemprego e desigualdades pós-pandemia pode ter impulsionado o recrutamento para esses grupos, muitas vezes compostos por jovens de periferias urbanas em busca de renda rápida.
Moradores das áreas afetadas pela operação expressaram alívio misturado a receio. Um policial do Grupo de Operações Especiais (GOE), que participou das buscas, acrescentou: “Esses caras não veem pessoas, veem alvos. Intervir cedo salva vidas, não só de agentes, mas de civis inocentes que acabam no fogo cruzado”.
Os impactos dessa operação vão além das prisões: ela reforça a importância de ações preventivas em um estado onde roubos a bancos cresceram 15% nos últimos dois anos, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Com o envolvimento de unidades especializadas como o Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), o Comando de Operações Especiais (COE) e o 11º Batalhão de Ações Especiais de Polícia (Baep), a ação demonstra uma integração crescente entre polícia e Ministério Público, o que pode inibir futuras tentativas. No entanto, analistas alertam para possíveis desdobramentos, como a reorganização da quadrilha em outras regiões ou o surgimento de facções rivais. “É uma vitória pontual, mas o crime organizado é resiliente; precisamos de políticas de longo prazo, como inteligência compartilhada e investimentos em comunidades vulneráveis”, avalia um promotor do Gaeco, destacando a necessidade de combater as raízes sociais do problema.
Enquanto as investigações prosseguem para identificar possíveis conexões com redes maiores, a operação serve como lembrete de que a segurança cotidiana depende de vigilância constante. Famílias em cidades pequenas, como Cravinhos, agora respiram mais aliviadas, mas o episódio expõe as fragilidades de um país onde a violência armada ainda ameaça o dia a dia comum.
Por Alexsandro Assis

