A jornalista da Repórter Brasil Ana Aranha, que dirigiu o documentário "Pau DAna Aranha, jornalista da Repórter Brasil e diretora do documentário “Pau D’Arco”, presta depoimento sobre o caso no Tribunal dos Povos durante a COP30, em Belém (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

A CHACINA de Pau d’Arco, em que agentes das polícias civil e militar do Pará mataram dez trabalhadores sem-terra em 2017 numa fazenda no sul do estado, poderia ter passado para a história como apenas mais um típico episódio de violência e impunidade no campo brasileiro. 

No entanto, o caso narrado com riqueza de detalhes no documentário “Pau D’Arco” — uma produção da Repórter Brasil — vem ganhando o mundo e pressionando pelo julgamento dos responsáveis pelo maior massacre rural do século. O processo está parado há seis anos no Tribunal de Justiça do Pará, desde que policiais foram indiciados por tortura e homicídio.  

Desde a estreia em festivais no Brasil, em abril de 2025, o filme ajudou a impulsionar a criação de um assentamento para famílias sem-terra no local onde ocorreram as mortes. Além disso, sessões estratégicas do documentário vêm dando visibilidade ao caso entre tomadores de decisão dos três poderes. 

Na semana passada, a carreira internacional do filme teve início com sessões na França e na Inglaterra. “Pau D’Arco” percorreu instituições de prestígio na Europa, como o King’s College e a London School of Economics, da Inglaterra. 

Uma sessão fechada para convidados na Queen Mary University of London contou com a presença de autoridades como o embaixador brasileiro Antonio Patriota, além de parlamentares, acadêmicos e representantes de organismos internacionais.

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A presença desse público não foi simbólica: a diretora do documentário, Ana Aranha, relata que a obra vem conquistando aliados nacionais e internacionais. “Este filme não é só um filme, nós entendemos ele como uma ferramenta de busca por justiça”, afirma. 

Na França, no Cinelatino Festival de Toulouse, a reação do público geral foi similar à do brasileiro, destaca a diretora. Segundo ela, os franceses se emocionaram e demonstraram engajamento nas perguntas ao final das sessões, demonstrando que a busca por justiça nasce da conexão humana com a história, algo que transcende fronteiras políticas e regionais.

O filme continuará correndo festivais dentro e fora do Brasil. Na Europa, vai ser exibido no Festival de Cine de Derechos Humanos de Barcelona, na Espanha, e no programa Brazil Unfiltered, em Amsterdam, Holanda, no cinema Filmhuis Cavia. Na Coréia do Sul, o filme vai ser exibido no Seoul Human Rights Film Festival. 

Junto com a divulgação, a equipe do filme promove uma campanha de impacto para fomentar a ação das autoridades brasileiras. Sessões estratégicas com debates foram pensadas em torno de três objetivos centrais.

A jornalista da Repórter Brasil Ana Aranha, que dirigiu o documentário "Pau D'Arco", presta depoimento sobre o assassinato de Fernando dos Santos Araújo (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)
Ana Aranha, jornalista da Repórter Brasil e diretora do documentário “Pau D’Arco”, presta depoimento sobre o caso no Tribunal dos Povos durante a COP30, em Belém (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

O primeiro é o julgamento dos policiais réus pela chacina. É importante sublinhar: o filme não pede a condenação dos indiciados, mas sim que as evidências levantadas na investigação da Polícia Federal sejam levadas a julgamento. Os réus indiciados por homicídio e tortura aguardam o julgamento livres e na ativa, trabalhando na mesma região onde vivem as testemunhas. Além dos executores, os mandantes do caso seguem sem identificação.

O segundo ponto da campanha é a destinação para a reforma agrária da Fazenda Santa Lúcia, onde ocorreu a chacina, frente onde houve maior avanço. As famílias que vivem no local, assim como os sobreviventes da chacina, estão agora em processo de credenciamento junto ao Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária). 

Em 2025, uma decisão histórica da Justiça Federal validou o caso como a primeira desapropriação por interesse social comum da Amazônia. A medida foi necessária porque o proprietário da Santa Lúcia se recusava a negociá-la com o Incra. Desde então, o governo depositou o valor em juízo e deu início ao processo de criação do assentamento. 

O terceiro objetivo é a reparação. Passados nove anos da chacina, nenhum sobrevivente ou familiar das vítimas recebeu indenização do Estado pela violência sofrida. Para Ana Aranha, a reparação é inegociável: os sobreviventes e parentes de vítimas sofreram uma violência de Estado e aguardam há quase uma década por reconhecimento e apoio financeiro e psicológico. Os pedidos de indenização estão correndo no Tribunal de Justiça do Pará, a mesma corte onde o processo criminal da chacina aguarda julgamento há seis anos.

Filmagens do documentário tiveram início no dia da chacina

“Pau D’Arco” propõe um olhar essencialmente humano sobre os trabalhadores sem-terra. Ao dar rosto e voz a quem o poder insiste em apagar, o filme desafia a narrativa que os transforma em “invasores” e devolve a esses homens e mulheres a condição de sujeitos de direitos. 

As filmagens começaram no dia da chacina com a intenção inicial de acompanhar os sobreviventes até o julgamento dos policiais indiciados. Segundo a diretora, a Polícia Federal fez um importante trabalho de investigação, realizando a maior reconstituição de um crime na sua história. 

Testemunhas e exames balísticos mostram que foram tiros a curta distância que mataram os trabalhadores, afastando a justificativa de “confronto” alegada pelos agentes envolvidos. A delação premiada de dois policiais civis também corroborou a versão das testemunhas e os exames de corpo de delito.

O julgamento, porém, não aconteceu. Com o passar dos anos, a cobertura midiática diminuiu, o caso caiu no esquecimento e a defesa dos policiais conseguiu protelar o processo. “O vácuo da Justiça foi uma falha grave,” diz Ana Aranha.

Por isso, o filme deixou de ser apenas um registro de acompanhamento e passou a ser parte da denúncia da omissão do Estado. A equipe do documentário assumiu esse compromisso de forma explícita. “A gente continua monitorando todas as pessoas que aparecem no filme”, afirma Ana. “Sabemos que a exposição delas através do documentário pode aumentar o risco. Caso alguma coisa aconteça, nossa equipe vai cobrir e vai denunciar”, finaliza.


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By contato@gazetametropolitano.com

Nascido em 1977, em Jundiaí, e cresceu em Cajamar, Alexsandro Assis é capelão, mentor e marceneiro com alma artesã. Formado em marcenaria, lecionou o oficio em Cajamar e, movido pela paixão por história e fé cristã, estuda arqueologia bíblica e teologia. Professor de computação e estudante de Tecnologia da Informação, também é jornalista, fundador do grupo Cajamar Quociente e do portal Gazeta Metropolitana, onde aborda notícias regionais e globais com perspectiva conservadora. Guiado por fé, estoicismo e amor transformador, Alexsandro inspira vidas com seu lema "Viva com propósito". Acompanhe-o no Instagram (@assis_alexsandro) ou em gazetametropolitana.com.