A DGD (Diamond Green Diesel), fabricante de biocombustíveis dos Estados Unidos que exporta diesel “verde” e combustível sustentável de aviação (SAF) para a Europa, comprou sebo bovino de um fornecedor abastecido por um frigorífico diretamente implicado em um caso de criação clandestina de gado dentro da Resex (Reserva Extrativista) Jaci Paraná, em Rondônia.
Em 2022, num documento judicial acessado pela reportagem, a exportadora de gordura animal Pacífico informou que o frigorífico Distriboi era o seu principal fornecedor de matérias-primas. Dois anos depois, o frigorífico foi condenado ao pagamento de danos materiais e morais por adquirir, entre agosto de 2020 e janeiro de 2022 , animais oriundos da Resex Jaci Paraná. Segundo autoridades ambientais de Rondônia, a instalação de pastagens na reserva está ligada ao desmatamento de uma área equivalente à do município de São Paulo.
A Pacífico está localizada em Cacoal, Rondônia, e exportou para a DGD, entre 2023 e 2025, quase 15 mil toneladas de sebo bovino, insumo usado na produção de combustível classificado pela empresa como “sustentável”. A informação foi obtida em documentos alfandegários acessados em investigação realizada com o apoio do Journalismfund Europe, e conduzida em parceria com a Unearthed.
Neste mesmo período, ainda segundo dados alfandegários, a companhia norte-americana exportou milhares de toneladas de biodiesel e SAF (combustível sustentável de aviação, em inglês) para a Europa. Foram 176 mil toneladas destinadas ao Reino Unido em 2024 e 2025, além de 261 mil toneladas exportadas para Holanda, Noruega e Bélgica apenas em 2025.
Em setembro de 2025, outra investigação da Repórter Brasil já havia mostrado que a DGD comprou sebo de graxarias com histórico de aquisição de resíduos do abate oriundos de frigoríficos abastecidos por fazendas autuadas por desmatamento ilegal.
A Pacífico é subsidiária do Grupo Fasa, uma empresa brasileira de processamento de subprodutos da indústria do abate. A Fasa pertence desde 2022 à multinacional norte-americana Darling Ingredients, que, por sua vez, também é uma das donas da DGD por meio de uma joint venture com a Valero Energy. A Valero Energy é uma das maiores refinarias de petróleo dos Estados Unidos.

Procuramos todas as empresas desse grupo econômico para comentar a conexão de fornecimento indicadas no processo judicial, na ação que gerou a condenação da Distriboi e nos dados aduaneiros.
A Darling Ingredients afirmou que está comprometida em garantir que suas matérias-primas “sejam livres de desmatamento.” Também disse que “a Pacífico não recebe matéria-prima do frigorífico Distriboi, em Ji-Paraná”, mas não esclareceu se recebe insumos da outra planta abate da empresa, em Rolim de Moura, ou se já recebeu no passado da unidade de Ji-Paraná — a planta diretamente implicada no caso que deu origem à condenação judicial do Distriboi.
“Estamos em processo de exigir que todos os fornecedores de matérias-primas atestem que seus produtos são livres de desmatamento”, afirmou a empresa em nota, que pode ser lida na íntegra aqui.
A DGD, a Valero e a Pacífico não responderam até a publicação desta reportagem. O texto será atualizado caso haja manifestação delas.
Por meio de seus advogados, a Distriboi disse que não se pronunciaria sobre os processos em curso, “em respeito ao Código de Ética da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), à legislação pertinente e às cláusulas contratuais de confidencialidade”. A íntegra da resposta pode ser lida aqui.
Reserva com quase 800 fazendas ilegais
Criada em 1996, Jaci-Paraná é uma unidade de conservação estadual onde só são permitidas atividades de subsistência de comunidades tradicionais que ajudam a preservar a Amazônia, como seringueiros e catadores de castanha e açaí. Nas últimas duas décadas, porém, extrativistas deixaram seus territórios e abandonaram suas casas após sofrerem ameaças de morte, de acordo com a PGE (Procuradoria Geral do Estado) de Rondônia.
Em 2024, a Procuradoria estadual constatou que existiam 778 fazendas ilegais de criação de gado em áreas que deveriam ter a floresta preservada. O órgão move 52 ações civis públicas para responsabilizar grileiros e empresas que teriam se beneficiado da ocupação ilegal. A PGE de Rondônia cobra mais de R$ 538 milhões em indenizações, multas e valores para recuperação florestal nas ações.
“Se é gado oriundo do crime, da grilagem, do desmatamento ilegal, esse combustível não é verde. É combustível oriundo do crime ambiental. E é assim que tem que ser tratado”, critica Neidinha Suruí, liderança indígena da região que atua na preservação da Amazônia e recebeu um Prêmio Emmy em 2025 pelo documentário O Território. “Os prejuízos para a biodiversidade foram terríveis!”, lamenta.
Segundo a Sedam (Secretaria de Estado do Desenvolvimento Ambiental) de Rondônia, os danos ambientais na resex alcançam R$ 5,2 bilhões. Pelos cálculos do órgão de 2024, dos 197 mil hectares de floresta originais de Jaci-Paraná, cerca de 151 mil viraram pasto e, no momento da avaliação dos danos, havia mais de 200 mil cabeças de gado ilegal no local. Ao menos duas das ações civis públicas resultaram em condenações, uma delas contra o frigorífico Distriboi, como já mencionado.
“Essas descobertas são muito frustrantes do ponto de vista climático, mas, infelizmente, não muito surpreendentes”, lamenta Cian Delaney, que é um dos coordenadores da organização europeia Transport & Environment. “Há anos estamos alertando que o sebo animal e o óleo de cozinha usado são particularmente suscetíveis a fraudes [na produção de biocombustíveis]”, completa.
Produto com selo sustentável
O combustível “verde” vendido na Europa pela DGD tem a certificação ISCC (International Sustainability Carbon Certification), que atesta critérios de sustentabilidade. Segundo a entidade, o certificado verifica as etapas da cadeia produtiva desde a origem da matéria-prima, para avaliar se ela atende aos requisitos exigidos.
Mas o sebo bovino é tratado como resíduo do abate, e por conta disso o ponto de origem considerado para a certificação não é a fazenda, e sim a unidade que processa os subprodutos animais — neste caso, a Pacífico.
Em nota, o ISCC esclareceu que não é a certificação que define se o sebo é ou não um resíduo. A instituição disse que apenas “aplica as definições e regras estabelecidas pela legislação pertinente”.
Segundo a entidade, classificar o sebo como resíduo baseia-se no princípio de que o objetivo principal da pecuária e dos matadouros não é a produção do insumo, e que, portanto, o subproduto é tratado de forma diferente na contabilização de gases de efeito estufa. Seu posicionamento completo pode ser lido aqui.
Heron Martins, pesquisador do Instituto Dados, organização brasileira que acompanha cadeias de produção para analisar seus impactos, salienta que a localização das unidades de produção de sebo ligadas à Darling Ingredients na Amazônia suscita preocupações. “Como recebem subprodutos do abate de gado, podemos identificar uma área provável de abastecimento. E essa área coincide exatamente com o arco de desmatamento da floresta”, comenta.
“Se o gado que fornece a gordura para o combustível tiver sido criado em florestas desmatadas ilegalmente, o sebo resultante provavelmente tornaria o biocombustível inelegível sob rigorosos critérios de sustentabilidade, independentemente do cálculo de suas emissões”, afirma Haniyeh Hajatnia, doutoranda especializada em avaliação do ciclo de vida para sustentabilidade na Universidade de Bath, do Reino Unido.
Essa reportagem teve apoio do Journalismfund Europe.

The post Diesel ‘verde’ feito nos EUA tem elo com empresa condenada em caso de desmate appeared first on Repórter Brasil.
