Romance “O fantasma milionário”, publicado pela Panda Books, leva leitores para uma história que mistura suspense, patrimônio histórico, trabalho infantil, relações familiares e os impactos das apostas esportivas
Um dos cemitérios mais tradicionais de São Paulo deixou de ser apenas cenário de histórias do passado para ganhar espaço também na literatura juvenil. O Cemitério da Consolação é o ponto de partida de O fantasma milionário, novo romance do escritor Marcelo Duarte, que utiliza o ambiente histórico da necrópole para construir uma aventura repleta de mistério, personagens inusitados e questões sociais presentes no cotidiano.
Na história, o guia Thaíde encontra durante uma visita noturna duas crianças, Zen e Cid, que trabalham escondidas limpando túmulos para ajudar a própria família. O encontro dá início a uma investigação envolvendo a suposta presença de um “fantasma milionário” e conduz os personagens por uma trama que vai muito além do suspense.
Por trás da aventura, o livro aborda temas delicados, como o trabalho infantil, as dificuldades enfrentadas por famílias de baixa renda e os impactos provocados pelas apostas esportivas. A narrativa combina humor, investigação e fantasia para aproximar o público jovem de problemas que fazem parte da realidade brasileira.

Um patrimônio que também conta histórias
Inaugurado em 1858, o Cemitério da Consolação é um dos mais importantes espaços de patrimônio funerário de São Paulo. Entre suas alamedas estão mausoléus, esculturas, obras de arte e túmulos ligados a personagens que participaram de diferentes momentos da história política, cultural e econômica da cidade.
É justamente essa riqueza histórica que transforma o local em um cenário particularmente fértil para uma história de mistério. Na obra de Marcelo Duarte, o silêncio, os monumentos e as marcas deixadas por diferentes gerações ajudam a construir uma atmosfera capaz de despertar a curiosidade dos leitores.
A escolha do espaço também reforça uma mudança na maneira como os cemitérios podem ser apresentados ao público. Além de locais de despedida e memória, essas áreas podem funcionar como espaços de educação, pesquisa, cultura e preservação histórica.
Essa aproximação já acontece na própria programação do Cemitério da Consolação, que recebe atividades destinadas a apresentar ao público sua arquitetura, arte tumular e personagens históricos.
Da visita ao livro
A inspiração para o romance surgiu justamente de uma visita de Marcelo Duarte ao cemitério. O autor conta que a experiência despertou a ideia de transformar aquele ambiente em cenário de uma aventura voltada aos jovens.
Segundo Marcelo, a iluminação dos prédios no entorno não deixava o local completamente escuro, mas o silêncio das alamedas e até a presença de baratas contribuíram para criar uma atmosfera peculiar.
Para o escritor, aquele conjunto de elementos tinha potencial para despertar a imaginação dos leitores e oferecer diferentes possibilidades para uma narrativa de suspense.
O resultado foi uma história que utiliza o imaginário dos fantasmas como porta de entrada para discutir situações concretas, aproximando fantasia e realidade sem perder o ritmo de aventura.
Personagem inspirado na vida real
Um dos elementos que aproximam ainda mais ficção e realidade é o personagem Thaíde. O guia da história foi inspirado em Thiago de Souza, pesquisador e divulgador do patrimônio funerário.
Thiago participa de iniciativas que ajudam a apresentar os cemitérios paulistanos sob uma perspectiva histórica e cultural. Na literatura, essa atuação ganha uma nova dimensão e passa a fazer parte de uma aventura destinada principalmente ao público infantojuvenil.
A proposta dialoga com um movimento que busca levar mais pessoas a conhecer esses espaços não apenas pelo aspecto ligado à morte, mas também pelas histórias, obras de arte e personagens que fazem parte da formação da cidade.
Passeios aproximam público da história
No Cemitério da Consolação, essa experiência pode ser vivenciada também fora das páginas do livro.
O espaço recebe visitas culturais gratuitas e passeios que apresentam elementos da história e do patrimônio funerário. Entre as atividades está o projeto “Consolação e Suas Vozes”, que promove passeios noturnos uma vez por mês em parceria com o projeto O Que Te Assombra?, idealizado pelo pesquisador Thiago de Souza.
A atividade também conta com a participação da historiadora Viviane Comunale, especialista em arte tumular e responsável pela página patrimonio_funerariosp.
Outra possibilidade são as visitas monitoradas realizadas às segundas-feiras, conduzidas por Popó, funcionário da Prefeitura que atua há mais de duas décadas nessa atividade.
Para Bruna Maia, gestora da necrópole, a chegada do Cemitério da Consolação à literatura juvenil amplia as possibilidades de contato das novas gerações com o patrimônio.
“Além de ser um lugar de memória e despedida, ele também é patrimônio cultural, espaço de pesquisa, educação e histórias.”
A avaliação é de que a presença do espaço em uma obra literária pode ajudar a despertar a curiosidade de crianças e adolescentes que talvez nunca tenham tido contato com esse tipo de patrimônio.
Quando o mistério abre espaço para debates reais
Embora tenha o suspense como um dos principais ingredientes, O fantasma milionário não se limita ao entretenimento. A trajetória de Zen e Cid coloca o trabalho infantil no centro da narrativa, enquanto o universo das apostas esportivas aparece como outro elemento capaz de afetar diretamente a estabilidade de famílias em situação econômica vulnerável.
A escolha desses temas dá à obra uma camada adicional: o leitor acompanha uma investigação ficcional, mas também é levado a refletir sobre problemas que ultrapassam os limites da história.
É nesse encontro entre aventura e realidade que o Cemitério da Consolação ganha um novo significado. As lápides e mausoléus deixam de ser apenas elementos de uma paisagem sombria e passam a funcionar como parte de uma narrativa sobre memória, desigualdade, família e escolhas.
Serviço
Livro: O fantasma milionário
Autor: Marcelo Duarte
Ilustrador: Hiro Kawahara
Editora: Panda Books
Visitas diurnas com Popó:
Toda segunda-feira, às 14h. A participação é gratuita, mediante inscrição.
Passeio noturno “Consolação e Suas Vozes”:
Realizado uma vez por mês. A participação é gratuita, com contribuição voluntária de 1 kg de alimento não perecível.
Local: Cemitério da Consolação
Endereço: Rua da Consolação, 1660, São Paulo (SP)
Ponto de encontro: Capela do Cemitério
As inscrições para as visitas são disponibilizadas pela organização por meio da plataforma Sympla.
Um novo olhar sobre lugares que guardam a memória de São Paulo
Ao transformar o Cemitério da Consolação em cenário de uma aventura juvenil, Marcelo Duarte faz mais do que construir uma história de fantasmas. O romance cria uma ponte entre literatura e patrimônio e mostra que lugares tradicionalmente associados ao silêncio e à despedida também podem despertar curiosidade, conhecimento e imaginação.
Nas páginas de O fantasma milionário, o passado encontra os dilemas do presente. E, entre mistérios, túmulos e personagens, o leitor é convidado a descobrir que algumas das histórias mais interessantes de uma cidade não estão apenas nos livros de história — estão escondidas nos lugares que ela aprendeu a preservar.
Por Alexsandro Assis


